sábado, 8 de setembro de 2018

Mulher e Quadrinhos: será que combina?

Crédito: Aliens of Camila


O quadrinho é cultural para a população brasileira. São usados com muita frequência na educação infantil como auxílio na alfabetização nos gibis e ilustram livros didáticos de todo Ensino Fundamental e Médio com tirinhas que contemplam os mais diversos assuntos.

Longe de ser um entretenimento de exclusividade para o público infanto-juvenil, o mundo das histórias em quadrinhos também traz narrativas voltadas para o público mais velho. Alan Moore, David Gibbons, Chris Claremont e John Byrne são apenas alguns dos grandes nomes no cenários das HQs que chamam a atenção do público geek e são considerados como para o gênero. Porém, além de adulto, esse grupo tem outra característica em comum: é majoritariamente constituído por homens.

Mas por que o público feminino não se atraiu pelas histórias em quadrinhos e por que meninas deixam de ler HQs quando ficam mais velhas?

Mulheres nos quadrinhos


Crédito: Clarulitas

O primeiro obstáculo encontrado pelas mulheres para se identificar com os quadrinhos é a forma como são retratadas neles. A hipersexualização da mulher é evidente quando vemos personagens femininas com corpos de proporções exageradas e com roupas muito curtas ou até mesmo nuas. “Esses quadrinhos de super heróis, quadrinho americano, tem alguns japoneses também, alguns mangás, sexualizam muito a figura feminina, falo em proporções de desenhos, em questões de técnica” diz Clara Lopes de Assis, ilustradora independente da página Clauritas no Instagram. “Eles exageram muito no corpo feminino e isso acaba refletindo também em quem consome” completa.

Outro problema discutido é a falta de personagens femininas interessantes. “Os personagens masculinos sempre são os principais, as mulheres sempre secundárias, estão ali como a melhor amiga, a namorada, mas nunca sendo a protagonista de suas próprias histórias.” comenta Camila quadrinista do Aliens of Camila. A maioria das história em quadrinhos não se adequa ao teste de Bechdel (veja a mais sobre o teste aqui), que questiona se há na obra personagens femininas que conversam entre si sem ter como assunto central um homem. Na maioria dos casos as personagens ou estão conversando com homens ou estão falando sobre homens. O plano de fundo dessas personagens também é ignorado na maioria das vezes, sem se aprofundar muito nas angústias ou motivações que levam a mulher a tomar suas decisões, dando a entender que é sua feminilidade e fragilidade que a faz agir de determinada maneira.

A ausência de mulheres quadrinistas também afasta bastante esse público. Quando a mulher não tem alguém que a represente de verdade, ela acaba se afastando do gênero considerado pela sociedade como “masculino”.

Mulheres quadrinistas


Crédito: Aliens of Camila


Antes de discutirmos o porquê de termos poucas mulheres de referência na história dos HQs precisamos tentar responder uma pergunta mais geral feita por Linda Nochlin: “por que não existiram grandes mulheres artistas?” A forma como a sociedade aceita o trabalho dessas artistas pode justificar o motivo. A genialidade é dada pelo fator social, ou seja, é a sociedade que define quais tipos de obras são de grande destaques e quais serão apagadas e destruídas com o tempo. Como vivemos em uma sociedade cujo trabalho masculino é mais valorizado que o feminino, é fácil constatar porque  as obras de mulheres não foram consideradas grandiosas e não tiveram visibilidade.

Quando falamos sobre o mundo dos quadrinhos, isso não é diferente. O universo considerado “masculino” é valorizado enquanto o “feminino” se torna de qualidade inferior. O mérito artístico deixa de ser apenas baseado em técnica, mas passa a ser social também. Desta forma, o mercado acaba também dando mais destaque à quadrinistas homens. Isso explica porque o trabalho feito por mulheres quadrinista costuma não ser aceito pelo público masculino - atualmente maior consumidor de quadrinhos. O motivo apontado por homens muitas vezes é de que mulheres fazem quadrinho “fofos” e “infantis” com temáticas que não interessam o público masculino. Por outro lado, as autoras revelam que muitas vezes seus textos não englobam temáticas específicas do cotidiano feminino e apenas colocam a mulher como protagonista de questões cotidianas. “Tenho personagens homens, sim, e represento às vezes algumas coisas que servem tanto pra homem quanto pra mulher, isso não tem distinção de gênero, mas não faço nada voltado especificamente pra homem.” diz Camila.

Assim, o trabalho feito por mulheres acaba tendo pouca visibilidade. “Eu acho que é uma coisa muito velada esse lance de dificuldade por ser mulher. Ninguém vai falar pra você: ‘Você não vai participar de tal evento por ser mulher’ ou vai querer menosprezar o seu trabalho por conta disso.” Camila. Mas ela diz que é possível perder algumas oportunidades por conta da falta de visibilidade “Mas não perdendo, é mais: certas oportunidades acontecem mais com quadrinistas homens do que com quadrinistas mulheres”. Sem o olhar das editoras, fica difícil entrar no mercado, como explica Clara “além do seu trabalho de criar o seu quadrinho inteiro, de criar a sua história, criar a narrativa, além disso, você tem que imprimir. E para fazer essa obra física é muito complicado, você precisa de muito patrocínio, porque é uma coisa que tem muito gasto. Acho que a essa é a parte mais difícil”.

A forma que estas quadrinistas encontram de ter o  trabalho com mais visibilidade é se concentrar no público feminino. pois este demonstra mais aceitação à temática e vem aumentando junto com a quantidade de quadrinistas que o representa. O uso de plataformas de financiamento coletivo e das redes sociais auxiliam as quadrinistas a lançarem o seu trabalho de maneira independente e a divulgar o seu trabalho. “Eu gosto de fazer [quadrinhos] pensando nas meninas, pensando em como eu posso representar vários dramas femininos que a gente passa e como eu posso ser porta voz de certa forma, trazer uma representatividade pro universo feminino nos quadrinhos.  Ainda é um universo muito novo e está sendo descoberto agora por nós mulheres.” diz Camila, “as meninas estão começando a ver que o trabalho não é só feito por homens, que têm mulheres também fazendo e que elas também podem se divertir lendo HQ. Então pra mim é bom fazer mais voltado pra mulher mesmo porque acho que isso vai ajudar outras meninas, vais trazer meninas pra dentro dos quadrinhos, vai ajudar as meninas que querem fazer [quadrinhos]” completa.

Esse meio vem dando resultados e mudando o cenário no universo das HQs. A FIQBH (Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte), que ocorreu no final de junho deste ano, teve como homenageada Erica Awano, “lenda do mangá nacional”, segundo a página do evento. Além de exposição sobre o trabalho de mulheres quadrinistas de Belo Horizonte e a lista de convidados bem diversificada.

Trazer a mulher como autora de suas próprias histórias aumenta o interesse do público feminino pelo gênero e prova que quadrinhos não é necessariamente “coisa de menino”. Hoje as mulheres não se contentam em parar só nos gibis e o público nerd tem que se preparar para receber as moças que estão chegando e não parecem com muita vontade de se retirar. Quando perguntada sobre as críticas masculinas sobre o seu trabalho, Camila responde rindo: “Crítica de macho? Sempre! Eles se incomodam muito quando a gente passa a representar pessoas diferentes” mesmo assim, ela não pretende parar: “faço [quadrinhos] porque é o que me dá gosto de fazer. O dia que não ficar tão legal assim eu vou parar, mas isso não vai ser tão cedo.”


Links

Clarulitas:
Instagram: @clarulitas

Aliens of Camila
Instagram: @aliensofcamila

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