segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Microconto | Estátua


Todo sábado Ubaldo se pintava de prata e ia até a praça central. Lá ficava a tarde toda, trabalhava como estátua. Devagar trocava de pose, tão devagar que quem passava distraído não o percebia. Todo sábado crianças passavam pelo local e deixavam moedinhas em seu chapéu. Ele fazia uma reverência e as pequenas davam um salto de susto, depois se riam e corriam para perto dos pais.

Todo sábado alguém passava e cochichava "esse pessoal tem preguiça de arrumar um emprego descente, fica aí ganhando a vida fácil". Todo sábado Ubaldo voltava pra casa com o suficiente para pagar o metrô, mas se a passagem aumentasse não valeria mais a pena, teria que arrumar outro jeito.

Naquela segunda-feira, após um dia cansativo de trabalho em seu segundo emprego, sentou-se no banco na padaria, pediu um pingado e um pão na chapa. Na televisão passava a propaganda "A Virada Cultural neste fim de semana reunirá mais de 100 apresentações, tornando a arte acessível a todos."

Naquele sábado, Ubaldo ficou em casa.

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