sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Microconto | Dulcineia


Oh, Bela!

Devo denunciar-te que tenho por ti um descomunal desejo. Teu pomo vultoso atufa minha visão, destacado pela cútis alva que tens, harmonizada a teus garbosos olhos pardos. Tenho grande ambição de tornar-te minha dulcineia!

Desgraçadamente há algo cuja aventura tolhe: possuis uma inaptidão para a prosa. Explano-te por tantas vezes sobre a colocação correta do pronome oblíquo átono, ou sobre a gravidade do uso da segunda pessoa, todavia tu confundes tudo e renuncia ao uso da mesóclise. Estou farto de pedir-te um linguajar mais rebuscado! Dir-te-ei, oh Bela, não há nada mais fatigante que a escassez de nossa comunicação.

Clamo-te: entenda o que te digo de uma vez por todas! Assim poderá traduzir-me a mim mesmo.

De teu estimado pedante.

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